domingo, 1 de junho de 2008

Um pouco de Museologia...

FUNÇÃO SOCIAL DO MUSEU E CIDADANIA...

A relação entre museologia e a educação constitui um elemento importante para entender o valor pedagógico do museu. Enquanto instituição pública, o museu foi ganhando progressivamente esse valor e a sua actividade educativa foi-se modificando ao longo do tempo, reflectindo as próprias transformações das sociedades, do pensamento científico e dos diversos contextos sociopolíticos. Neste sentido foram surgindo novas abordagens à relação entre o museu e a educação que nos parecem fundamentais analisar para compreender o papel educativo do museu e dos projectos museológicos na actualidade.
Para esta temática, analisamos alguns documentos sobre questões ligadas ao museu e à museologia, mas agora revisto na perspectiva entre museus e educação. Esses documentos provêm de organismos internacionais , cuja missão está relacionada com a preservação, valorização e divulgação dos museus e da museologia, nomeadamente a UNESCO, o ICOM e respectivos comités, bem como documento proveniente da Mesa-Redonda de Santiago do Chile (1972) e a declaração de Caracas (1992). Estes documentos serviram para entender a relação entre a museologia, o museu, e a educação e a escola nas diferentes épocas especialmente no que diz respeito à museologia contemporânea e às novas correntes museológicas.

CIDADANIA

O museu é entendido como o espaço onde se pode observar as relações dos indivíduos com a realidade no seu todo, e as colecções ilustram a memória colectiva e a identidade de uma comunidade. Consequentemente, o conceito de património cultural é redefinido para toda a produção social dos seres humanos e da sua relação com o meio ambiente onde o meio natural e o meio cultural são entendidos como um todo.
Outra consequência prende-se com a ampliação da área de intervenção do museu para o exterior, isto é, o território comunitário. As novas responsabilidades para o museu e para a museologia que daqui advêm implica uma prática interdisciplinar, onde a acção museológica é democratizada na medida em que prevê a participação de novos agentes, principalmente da comunidade local.
Neste contexto de participação Mário Moutinho aborda a museologia popular como:
“(...) um grupo de pessoas (grupo de interesse, comunidade, etc.) toma nas suas mãos a resolução de problemas que afectam a sua vida no quotidiano, reconhecendo-se que a sua solução passa por um conhecimento crescente dos problemas, pelo controlo de todos os seus aspectos, pela capacidade de inovoção, passa em suma pela participação” (Moutinho, 1989.110).

O mesmo autor afirma, que o factor humano é privilegiado e o objecto tem uma “(...) condição de utensílio da acção museal e não como até agora como fim dessa mesma acção” (Moutinho, 1989, p.107), e refere,

“ Alteram-se aqui, o lugar e a função dos intervenientes (profissionais – público – criadores) bem como as noções de património, de objecto museológico e de colecção. O poder de decisão é reequacionado em termos de uma possível autogestão, ou de pelo menos de uma maior acessibilidade de cada interveniente à gestão museológica e à criação museográfica.
Não ser uma museologia da ruptura ou marginal não significa que se estruture e se fundamente à imagem da museologia tradicional. Pelo contrário esta NOVA MUSEOLOGIA que resulta das novas condições de produção do discurso museológico acumulado ao longo de gerações, demonstra nas suas diversas formas uma consciência mais clara da ideia de participação e provoca uma implicação social mais evidente.
Estamos pois a falar de uma museologia informal que se enquadra no conceito mais amplo da museologia social o qual traduz uma parte considerável do esforço de adequação das estruturas museológicas aos condicionalismo da sociedade contemporânea” (Moutinho, 2001).

Nesta museologia de carácter social, o papel omnipotente do museólogo é substituído pela ideia de um gestor social que intervém em domínios da acção cultural, da acção social, da acção económica e até da acção política. Ele deve gerir os problemas da comunidade através de um diálogo permanente e envolvente com o objectivo de estimular a consciência crítica e dotar a população dos instrumentos necessários ao seu desenvolvimento. Neste contexto, a acção museológica relaciona-se com o momento presente, com o quotidiano das pessoas, e não apenas com a preservação de um testemunho passado para as gerações futuras.
Para Santos, são sete os princípios básicos que caracterizam as acções enquadradas na Nova Museologia:

“- O reconhecimento das identidades e das culturas de todos os grupos humanos;
- A utilização da memória colectiva como um referencial básico para o entendimento e a transformação da realidade;
- O incentivo à apropriação do património, para que a identidade seja vivida, na pluralidade e na ruptura;
- O desenvolvimento de acções museológicas, considerando como ponto de partida a prática social e não as colecções;
- A socialização da função da preservação;
- A interpretação da relação entre o homem e o seu meio ambiente e da influência da herança cultural na identidade dos indivíduos e dos grupos sociais;
- A acção comunicativa dos técnicos e dos grupos comunitários, objectivando o entendimento, a transformação e o desenvolvimento social” (Santos, 2002, p.108-109).

A nova museologia não resulta da evolução da museologia tradicional mas da necessidade do museu e da museologia se adaptarem e responderem às transformações da sociedade e a novas necessidades culturais. Quer a nova museologia, quer a museologia tradicional continuaram no tempo, por vezes de forma paralela outras cruzando-se em determinados pontos. Assim podemos dizer que não existe uma única noção de museologia mas antes distintos modelos que provêm de diferentes concepções de museu e de acção museológica.
Nesta museologia social, activa e comunitária, a questão da função social é fundamental e os museus procuram, cada vez mais, desempenhar um papel pertinente na comunidade, sendo que o património é utilizado como instrumento para o exercício da cidadania e para o desenvolvimento da sociedade, onde o processo educativo é fundamental.
Para entender que a maior potencialidade dos museus é a sua acção educativa e, a educação verdadeira é aquela que serve à libertação, questionamento e reflexão, é que alguns profissionais da museologia trouxeram, a partir da década 70, para “o mundo dos museus”, o método de Paulo Freire.
Poderíamos dizer que a teoria de Paulo Freire se baseia na colaboração, união pela libertação, síntese cultural, diálogo, criatividade, reflexão crítica e na negação da educação repressora. Sendo assim uma teoria/prática educativa que compreende o indivíduo como ser participativo que busca, em colaboração com outros indivíduos, a emersão da consciência e do saber.

“ Já agora ninguém educa ninguém, como tampouco ninguém se educa a si mesmo: os homens se educam em comunhão, mediatizados pelo mundo” (FREIRE. 1981:69).

Baseada em Paulo Freire e não só, a acção educativa museológica deve criar situações que levem, os sujeitos envolvidos, à reflexão e ao desenvolvimento. Somente desta forma estará contribuindo para uma educação que seja dialógica e libertadora, onde os indivíduos estejam capacitados a transformarem a sua realidade.
O exercício da cidadania só ocorre quando o indivíduo conhece a realidade na qual está inserido, a memória preservada, os acontecimentos actuais, entendendo as transformações e buscando um novo fazer.Assim, podemos dizer que a museologia tomando como base o Património Cultural – que é fruto do fazer e saber fazer do homem e, continuando a desenvolver as funções básicas de colecta, documentação, conservação, exposição e acção cultural, todas elas direccionadas ao fazer educativo – cultural na tentativa de despertar a consciência crítica do indivíduo, leva-o assim a reapropriação da memória colectiva e ao direito do exercício da sua cidadania.

Safira

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