segunda-feira, 4 de julho de 2011

sábado, 2 de julho de 2011

Octávio Gonçalves escreve carta ao primeiro ministro...

Sua Excelência,
Senhor Primeiro-ministro, Dr. Pedro Passos Coelho.

C/C
Sua Excelência,
Senhor Ministro da Educação e Ciência, Prof. Dr. Nuno Crato.

É pública a discordância de Vossa Excelência relativamente à filosofia que enforma o actual modelo de avaliação do desempenho dos professores, a qual se suporta na total desresponsabilização da tutela e na completa ausência de dimensão externa, alienando o processo ao arbítrio da avaliação entre pares, em que qualquer um está em condições de avaliar qualquer outro, sem se cuidar do reconhecimento da autoridade, da formação, do rigor, do acautelar de conflitos de interesses e da isenção.

É, também, pública a forma enfática como Vossa Excelência tem rejeitado os processos em que se tem vindo a concretizar a implementação deste modelo de avaliação, chegando ao ponto de os qualificar, adequadamente, como "monstruosos" e "kafkianos".
De igual forma, os professores conhecem o seu empenho e convicção em revogar o actual modelo de avaliação, caso contrário não se exporia à acusação de eleitoralismo quando procurou eliminá-lo, no Parlamento, em Março de 2011, do mesmo modo que são testemunhas, tanto do seu aproveitamento eleitoral da figura e das ideias do Professor Santana Castilho, como da sua afirmação de que possuía uma alternativa ao modelo actual ou, ainda, das suas declarações públicas, em sucessivas entrevistas, que iam no sentido do compromisso em acabar com a vigência de tamanha aberração burocrática, pelo que os professores não compreendem outra decisão que não seja a de verem revogado, nos próximos dias, este modelo.

Certamente, não ignora Vossa Excelência, até porque o Professor Santana Castilho deve tê-lo elucidado à saciedade e o Professor Nuno Crato ainda ontem o reafirmou no Parlamento, que este modelo de avaliação não garante condições mínimas de fiabilidade, de seriedade e de imparcialidade, constituindo, quer o principal foco de conflitualidade e de instabilidade nas escolas, quer o pretexto contraproducente para ocupações burocráticas e para produções folclóricas e artificiais que, além de inúteis e destituídas de qualquer impacto positivo nas aprendizagens dos alunos, se consumam num processo opaco de atribuição de classificações que impede, mercê da sua natureza sigilosa, qualquer possibilidade de escrutínio público da avaliação do mérito dos avaliados, sendo susceptível de gerar injustiças, seja sob a forma de favorecimentos, de prejuízos e, mesmo, de incontrolada subjectividade ou incapacidade na avaliação.

Não está em causa acreditar que Vossa Excelência proporá uma nova avaliação (até tomo a liberdade de lhe sugerir que, para aumentar a fiabilidade e a isenção do processo, o docente que vai mudar de escalão possa ser objecto de uma classificação de serviço que resulte da média das classificações atribuídas pelo coordenador de departamento/grupo disciplinar, pelo director e pelo inspector da IGE, uma vez reorganizada esta estrutura por áreas científicas/disciplinares), mas, uma vez consciente do carácter arbitrário, perturbador e injusto do modelo em vigor, torna-se um imperativo de seriedade e de preservação da relação de confiança com os professores que Vossa Excelência despache no sentido da cessação imediata dos processos avaliativos que decorrem, neste momento, nas escolas, inviabilizando que cheguem ao seu termo e gerem injustiças irreparáveis, tanto em termos de progressões na carreira e de concursos, como ao nível da deterioração dos climas relacionais e do regular funcionamento das escolas.

Se Vossa Excelência optar por legitimar este ciclo avaliativo, permitindo a sua finalização, estará, de todo, ciente de ficar associado a uma farsa avaliativa e de ser o responsável pela quebra irreversível da confiança que milhares de professores depositaram em Vossa Excelência, com todas as consequências que daqui advirão em termos, quer da avaliação pública da sua credibilidade, quer da disponibilidade dos professores para se envolverem activamente na concretização das mudanças que postula para a escola pública.

Na expectativa de que prevalecerá o seu sentido de exigência e de fidelidade às iniciativas e intervenções pré-eleitorais e eleitorais, aguardo a sua decisão de revogação imediata do modelo de avaliação de professores em vigor e a declaração de nulidade de todos os processos em curso e suas consequências.

Subscrevo-me, respeitosamente,

Octávio V. Gonçalves
Professor do quadro da Escola Secundária de S. Pedro, em Vila Real

quinta-feira, 30 de junho de 2011

sábado, 18 de junho de 2011

NUNO CRATO - O que os Professores esperam do novo Ministro da Educação


O novo ministro da Educação é de longe a melhor escolha para o lugar. Nuno Crato apresenta duas grandes vantagens: conhece muito bem o sector e não está contaminado pelo trio 'eduquês'-'socialistês'-'sindicalês'. Para além disso é alguém que sempre defendeu a disciplina, o rigor e a exigência, que sempre reconheceu e respeitou o difícil e valioso trabalho dos professores e, bastante importante, é uma pessoa sensata. Todas estas qualidades não são coisa pouca num ministro da Educação.
Paradoxalmente serão precisamente as suas largas virtudes que lhe tornarão difícil a implementação de uma agenda reformadora. O sistema educativo está minado por uma ideologia socialista que privilegiou o centralismo, o controlismo, o faz de conta, a indisciplina, a burocracia e o enxovalhar dos professores. Não será tarefa fácil.
Apesar das dificuldades, esperam-se medidas como:
- A reorganização e ampla redução - e quiçá pulverização - do gigantesco complexo administrativo-burocrático-controleiro do Ministério da Educação, com a eliminação de organismos como as DRE's, os gabinetes disto e daquilo, a DGDIC, etc etc etc;
- A reorganização do currículo do ensino básico, com a extinção das áreas curriculares não disciplinares, vulgo estudos acompanhados e afins;
- A introdução de uma cultura de exigência e de rigor com o alargar dos exames a todos os ciclos de ensino, a mais disciplinas e com peso na nota final dos alunos;
- A revisão do pernicioso sistema de avaliação de alunos - que mais não é do que uma máquina de produção de sucesso estatístico a martelo - focando-o nas aprendizagens e no trabalho dos estudantes;
- A revogação imediata do sistema de avaliação de professores e o início da testagem de outro que privilegie as aulas e o ensino em detrimento do show off, dos projectos e da burocracia, e que permita afastar os aselhas das salas de aula;
- A revogação do Estatuto do Aluno e a passagem para as escolas da definição de regras de conduta e de comportamento, que permitam não só reforçar a autoridade dos professores, mas principalmente fazer baixar o nível calamitoso de indisciplina que mina a maior parte do trabalho nas aulas e impede as aprendizagens.
Se Nuno Crato e a sua equipa conseguirem aplicar este conjunto de medidas e princípios, será talvez a primeira vez desde o 25 de Abril que o ensino dará um salto qualitativo. Se não o conseguirem, estar-se-á perante o exemplo acabado de uma área condenada e irreformável.

Retirado do blog Lisboa - Tel Aviv

sexta-feira, 17 de junho de 2011

Nuno Crato é o novo Ministro da Educação


Nuno Crato, o matemático que deu protagonismo à ciência exacta e se distinguiu pela sua divulgação, é o novo ministro da Educação, do Ensino Superior e da Ciência. Terá de poupar 195 milhões de euros e reduzir pessoal num sector com mais de 10 sindicatos de professores.

sábado, 11 de junho de 2011

Omens sem H

Por Nuno Pacheco. Hoje, no Público

Espantam-se? Não se espantem. Lá chegaremos. No Brasil, pelo menos, já se escreve "umidade". Para facilitar? Não parece. A Bahia, felizmente, mantém orgulhosa o seu H (sem o qual seria uma baía qualquer), Itamar Assumpção ainda não perdeu o P e até Adriana Calcanhotto duplicou o T do nome porque fica bonito e porque sim.

Isto de tirar e pôr letras não é bem como fazer lego, embora pareça. Há uma poética na grafia que pode estragar-se com demasiadas lavagens a seco. Por exemplo: no Brasil há dois diários que ostentam no título esta antiguidade: Jornal do Commercio. Com duplo M, como o genial Drummond. Datam ambos dos anos 1820 e não actualizaram o nome até hoje. Comércio vem do latim commercium e na primeira vaga simplificadora perdeu, como se sabe, um M. Nivelando por baixo, temendo talvez que o povo ignaro não conseguisse nunca escrever como a minoria culta, a língua portuguesa foi perdendo parte das suas raízes latinas. Outras línguas, obviamente atrasadas, viraram a cara à modernização. É por isso que, hoje em dia, idiomas tão medievais quanto o inglês ou o francês consagram pharmacy e pharmacie (do grego pharmakeia e do latim pharmacïa) em lugar de farmácia; ou commerce em vez de comércio. O português tem andado, assim, satisfeito, a "limpar" acentos e consoantes espúrias. Até à lavagem de 1990, a mais recente, que permite até ao mais analfabeto dos analfabetos escrever sem nenhum medo de errar. Até porque, felicidade suprema, pode errar que ninguém nota. "É positivo para as crianças", diz o iluminado Bechara, uma das inteligências que empunha, feliz, o facho do Acordo Ortográfico.

É verdade, as crianças, como ninguém se lembrou delas? O que passarão as pobres crianças inglesas, francesas, holandesas, alemãs, italianas, espanholas, em países onde há tantas consoantes duplas, tremas e hífens? A escrever summer, bibliographie,tappezzería, damnificar, mitteleuropäischen? Já viram o que é ter de escrever Abschnitt für sonnenschirme nas praias em vez de "zona de chapéus de sol"? Por isso é que nesses países com línguas tão complicadas (já para não falar na China, no Japão ou nas Arábias, valha-nos Deus) as crianças sofrem tanto para escrever nas línguas maternas. Portugal, lavador-mor de grafias antigas, dá agora primazia à fonética, pois, disse-o um dia outra das inteligências pró-Acordo, "a oralidade precede a escrita". Se é assim, tirem o H a homem ou a humanidade que não faz falta nenhuma. E escrevam Oliúde quando falarem de cinema. A etimologia foi uma invenção de loucos, tornemo-nos compulsivamente fonéticos.

Mas há mais: sabem que acabou o café-da-manhã? Agora é café da manhã. Pois é, as palavras compostas por justaposição (com hífens) são outro estorvo. Por isso os "acordistas" advogam cor de rosa (sem hífens) em vez de cor-de-rosa. Mas não pensaram, ó míseros, que há rosas de várias cores? Vermelhas? Amarelas? Brancas? Até cu-de-judas deixou, para eles, de ser lugar remoto para ser o cu do próprio Judas, com caixa alta, assim mesmo. Só omens sem H podem ter inventado isto, é garantido.

Jornalista