domingo, 17 de agosto de 2008

Os artigos 34º e 35º do Decreto-Lei 15/2007 revelam uma perspectiva desvalorizadora do ensino e da função lectiva


Foto de Solana, in Flickr.com
O que distingue a profissão docente de qualquer outra profissão de carácter social e de ajuda é apenas o ensino. Se retirarem ao professor a nobre missão de ensinar, nada o distinguirá de qualquer trabalhador da área social. O ME não tem feito outra coisa nos últimos 3 anos. Se combinarmos a leitura do artigo 34º, sobre as duas categorias de professor, com o artigo 35º, verificamos que as alterações ao ECD fixadas pelo Decreto-Lei 15/2007 não tiveram outra intenção senão descaracterizarem a profissão docente, desvalorizando os conteúdos funcionais inerentes ao ensino, de forma a justificar a criação de duas categorias de professor, o estrangulamento da carreira e o empobrecimento e desvalorização dos professores. Ora veja:


O artigo 34º do Decreto-Lei 15/2207 refere que:
2—A carreira docente desenvolve-se pelas categorias hierarquizadas de:
a) Professor;
b) Professor titular.
3—À categoria de professor titular, além das funções de professor, correspondem funções diferenciadas pela sua natureza, âmbito e grau de responsabilidade.


E o artigo 35º, ponto 4, determina os conteúdos funcionais específicos do professor titular:


a) A coordenação pedagógica de ciclo, ano ou curso;
b) A direcção de centros de formação das associações de escolas;
c) A coordenação de departamentos curriculares e conselhos de docentes;
d) O exercício das funções de acompanhamento e apoio à realização do período probatório;
e) A elaboração e correcção das provas nacionais de avaliação de conhecimentos e competências para admissão na carreira docente;
f) A participação no júri da prova pública para admissão ao concurso de acesso à categoria de professor titular.


A leitura dos conteúdos funcionais específicos do professor titular suscita-me alguns comentários:


1. Somando os conteúdos funcionais específicos do professor titular descritos pelas alíneas "a" até "f" do ponto 4 do artigo 35º aos conteúdos funcionais do professor descritos nas 19 alíneas do artigo 35º, ponto 2, é fácil verificar que o professor titular fica exposto à obrigatoriedade de exercer 25 conteúdos funcionais distintos, a maior parte dos quais sem ligação directa com a sala de aula. Pior do que isso: a maior parte dos conteúdos funcionais do professor titular vêm associados à realização de um sem número de reuniões. O mesmo aliás se passa com os conteúdos funcionais gerais, comuns às duas categorias de professor. A pergunta que se coloca é a seguinte: onde é que os professores titulares vão arranjar tempo para serem professores? Ou será que o legislador que teve a ousadia e o descaramento de redigir os artigos 34º e 35º do Decreto-Lei 15/2007 considera que ensinar já não é a principal missão do professor? Ou será que o legislador pressupõe que o professor titular deve deixar de exercer a nobre missão do professor: ensinar? Assim parece. Quando verificamos que o ME publicou legislação no sentido de isentar da componente lectiva alguns professores avaliadores do 1º CEB, só podemos responder afirmativamente. O ME deixou de considerar o ensino como a missão principal do professor. Talvez por isso, encare a Internet e os quadros interactivos com um entusiasmo tão infantil! Só mesmo alguém que tenha aprendido pouco na escola e na Universidade é que pode revelar um entusiasmo tão pueril pelos quadros interactivos e pelos computadores nas escolas.


2. Não deixa de ser curioso que as funções de gestão administrativa e pedagógica da escola possam ser exercidas por um professor não titular, o que desde logo revela que a divisão da carreira em duas categorias não obedece a qualquer intenção de valorizar as funções docentes, mas apenas um expediente para estrangular a carreira e impedir administrativamente a maioria dos docentes de atingirem o topo da carreira.


3. A desvalorização da direcção de turma constitui outra nota preocupante a retirar da leitura do artigo 35º. Em tempos considerado o cargo de gestão pedagógica intermédia mais importante, uma vez que o director de turma é responsável pela coordenação do conselho de turma e pela ligação entre os professores da turma e os pais dos alunos, nem uma alínea lhe é dedicada pelos artigo 34º e 35º. Ao que parece o legislador considerou que os conteúdos funcionais da direcção de turma são de tal forma irrelevantes que qualquer docente as pode e deve desempenhar.


Nota: apesar de estarmos em meados de Agosto, tem sido possível criar um fórum de discussão em torno do Decreto-lei 15/2007 (ECD). A publicação dos posts em torno dos artigos 34º e 35º tem essa intenção. Assim continuarei a fazer ao longo do resto do mês. A opinião dos colegas é essencial para trazer luz a questões de tão grande complexidade. É precisar gerar argumentos racionais, rigorosos e coerentes para que os professores possam justificar a luta pelas alterações ao ECD e ao modelo de avaliação burocrática de desempenho. A luta será prolongada e não se esgotará nesta legislatura. Vai sobrar para o próximo Governo. Ganhará quem souber apresentar os melhores argumentos e mostrar maior firmeza e tenacidade.

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

Exemplos que mostram a insensatez do modelo burocrático de avaliação


Uma das formas mais eficazes de combater ideologica e pedagogicamente o modelo de avaliação burocrática de desempenho é divulgar os exemplos caricatos criados por um modelo insensato e injusto. Neste blog, tenho procurado identificar, recolher e divulgar esses exemplos. Através dos exemplos é possível ir desmontando um modelo de avaliação que está errado em termos conceptuais, operativos e processuais. O exemplo divulgado pela colega Bárbara cumpre bem essa função.

A propósito da avaliação pelos pares, na minha escola ocorre uma situação engraçada. No Departamento das Expressões (que engloba Ed. Musical, Ed. Física, EVT, EV, ET, Apoios Educativos e Intervenção Precoce), o Coordenador do Departamento é um professor de Educação Física. Foi docente do 1.º Ciclo durante alguns anos e há mais de 10 anos que é professor de Educação Física. Fez a licenciatura em ensino básico, na variante de Educação Física. Este colega vai avaliar todos os docentes à excepção dos de EVT e EV, pois delegou essa competência ao outro titular que existe no Departamento, que, por sua vez, é professor de EVT.

Ou seja, o docente de Educação Física vai avaliar os colegas dos Apoios, da Intervenção Precoce, de Ed. Musical e de Educação Física. Alguns 20 marmanjos. Entre estas pessoas encontram-se mestres e doutorandos na respectiva área. Não configura isto uma injustiça e uma insensateza? Não são situações deste tipo suficientes para mostrar que o modelo de avaliação de desempenho precisa de profundas alterações? Como é que o ME pode continuar cego perante situações desta gravidade? Ou será que o domínio dos saberes científicos e curriculares deixou de ter valor na profissão do professor?

Bárbara

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

NO TRILHO DA ESPERANÇA

rss

Volta a Portugal de um professor indignado

A história de... António Morais

Ontem

JOÃO PEDRO CAMPOS

Por discordar da política do Governo em matéria de educação, este docente pôs pés (no caso, rodas) ao caminho para mostrar o seu descontentamento. Com o apoio dos sindicatos.

A "raiva e a indignação com as políticas do Governo" são o combustível que faz mover António Morais, um professor que se dispôs a percorrer o país de bicicleta, de Melgaço a Vila Real de Santo António. A viagem, a que chamou "No Trilho da Esperança", é apoiada pela Fenprof e pelos sindicatos de professores.

"Esta forma perversa como este Executivo implementou as medidas para a educação indignou-me e levou-me a tomar esta medida", explica António Morais, professor há 21 anos. Considerando que a ministra da Educação, Maria de Lurdes Rodrigues, "hostiliza os professores e tem-lhes feito coisas horríveis", o docente afirma que o caminho que se está a seguir não vai melhorar a educação. "Vai, em vez disso, conduzir a mais indisciplina". O professor lamenta ainda que a classe a que pertence tenha "pouca voz" na sociedade, havendo mais lugar ao futebol. "Até houve há pouco tempo um futebolista que se formou em três meses através do programa Novas Oportunidades", ironiza.

Actualmente a leccionar na Escola Básica Integrada de Eixo, em Aveiro, António Morais começou a viagem a 28 de Julho e espera chegar ao Algarve a 22 de Agosto. Nestas duas semanas de caminho, já visitou estabelecimentos de ensino dos distritos de Viana do Castelo, Porto, Aveiro e Coimbra, e hoje vai estar na Escola Secundária Francisco Rodrigues Lobo, em Leiria. Apesar de os protestos se dirigirem ao Ministério da Educação, não está prevista nenhuma passagem em Lisboa. "Faço uma diagonal em Santarém rumo ao Alentejo. Seria um desvio muito grande ir a Lisboa", justifica o professor, sublinhando a dificuldade que seria entrar na capital, devido ao trânsito.

Os problemas do percurso são muitos. "As estradas nacionais são muito complicadas, algumas ainda remontam às construções do Salazar, todas em pedra", revela. As saídas das grandes cidades também se têm revelado difíceis, "porque é preciso dar uma volta muito grande para apanhar as estradas nacionais".

Sem perder o bom humor, António Morais mostra-se optimista com os cerca de 500 quilómetros que ainda tem de percorrer até Vila Real de Santo António, e até brinca com a situação: "Posso não conseguir nada na educação, mas quando as petrolíferas souberam que havia um 'cota' sem menisco e com os joelhos todos podres a percorrer o país de bicicleta, foram logo a correr baixar o preço dos combustíveis", graceja.

A ISCA OU A CENOURA DE CONSOLAÇÃO

Público, 11 de Agosto de 2008

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

ITÁLIA VERSUS PORTUGAL

Itália: Nota de comportamento de aluno poderá influenciar média escolar

Roma, 02 Ago (Lusa) - O governo italiano aprovou hoje o decreto-lei sobre a reforma educativa, que prevê a atribuição de uma nota ao comportamento de um aluno, influenciando a média de conclusão do ano escolar. [...]

Toda a notícia em
RTP.

Por cá, os professores são incompetentes porque dão notas baixas aos alunos fracos... E se têm o azar de ser vítimas de violência dos alunos, ainda são acusados ou culpabilizados por isso.
Em Itália, as reformas são para melhorar o sistema educativo. Em Portugal, para destruir a Educação e manter o "zé-povinho" na ignorância.

MANIFESTAÇÃO DE PROFESSORES: MUITA PARRA, POUCA UVA


Educação
FENPROF admite convocar manifestação de professores na altura das eleições de 2009

A Federação Nacional dos Professores (FENPROF) admitiu hoje repetir no próximo ano, por altura das eleições legislativas, a grande manifestação de docentes de Maio passado, prometendo apresentar uma «carta reivindicativa» aos partidos políticos candidatos

«Se for preciso, para limpar algumas das medidas mais negativas, pôr mais cem mil professores na rua, faremos isso», advertiu o dirigente sindical Mário Nogueira, frisando a «desvalorização dos professores, como nunca aconteceu».
[...]
Para que «fique claro ao país o que o Governo fez às escolas», a FENPROF irá apresentar o «Livro Negro das Políticas Educativas», no final do primeiro período do próximo ano lectivo, afirmou Mário Nogueira em Coimbra, durante uma conferência de imprensa para fazer o balanço do ano lectivo 2007/2008.
[...]

Toda a notícia no Sol.

COMENTÁRIO:
Parece ser uma boa jogada táctica da Fenprof. No entanto, terá de ter consciência de que não arrasta 100.000 professores, pois se arrastou metade em 8 de Março, depois do Memorando a sua força diminuiu. Ainda assim, oxalá que os restantes professores se movimentem e adiram a todos os protestos.
Em tempo de guerra não se limpam armas. Pena que, perante a guerra, os sindicatos se limitem a meras declarações e (pseudo)entendimentos e os professores se acabrunhem e se acomodem numa longa espera... até que alguém dê o sinal.

FENPROF E O BALANÇO DO ANO LECTIVO

Educação
FENPROF «chumba» ministério e acusa Governo de «trabalhar para a estatística»

A Federação Nacional dos Professores (FENPROF) «chumbou» hoje a actuação do Ministério da Educação no último ano lectivo e acusou o primeiro-ministro de trabalhar para a estatística, com «shows mediáticos» que «não chegaram para esconder a profunda crise» do sector.
[...]
Aos professores, a FENPROF deu a classificação «Muito Bom» e às escolas «Bom», considerando que o ano lectivo 2007/08 ficou marcado pelo «grande momento de protesto» de 8 de Março que levou 100 mil professores à rua.
[...]
Toda a notícia no Sol.


COMENTÁRIO:
Se é apenas isto que a Fenprof tem para dar aos professores, urge mesmo repensar o sindicalismo docente!