segunda-feira, 2 de junho de 2008

Poema de Pablo Neruda

No queda sino un beso de la sal






SI de tus dones y de tus destrucciones, Océano
a mis manos
pudiera destinar una medida, una fruta, un fermento,
escogería tu reposo distante, las líneas de tu acero,
tu extensión vigilada por el aire y la noche,
y la energía de tu idioma blanco
que destroza y derriba sus columnas
en su propia pureza demolida.

No es la última ola con su salado peso
la que tritura costas y produce
la paz de arena que rodea el mundo:
es el central volumen de la fuerza,
la potencia extendida de las aguas,
la inmóvil soledad llena de vidas.
Tiempo, tal vez, o copa acumulada
de todo movimiento, unidad pura
que no selló la muerte, verde víscera
de la totalidad abrasadora.

Del brazo sumergido que levanta una gota
no queda sino un beso de la sal. De los
cuerpos
del hombre en tus orillas una húmeda
fragancia
de flor mojada permanece. Tu energía
parece resbalar sin ser gastada,
parece regresar a su reposo.

La ola que desprendes,
arco de identidad, pluma estrellada,
cuando se despeñó fue sólo espuma,
y regresó a nacer sin consumirse.

Toda tu fuerza vuelve a ser origen.
Sólo entregas despojos triturados,
cáscaras que apartó tu cargamento,
lo que expulsó la acción de tu abundancia,
todo lo que dejó de ser racimo.

Tu estatua está extendida más allá de las olas.

Viviente y ordenada como el pecho y el manto
de un solo ser y sus respiraciones,
en la materia de la luz izadas,
llanuras levantadas por las olas,
forman la piel desnuda del planeta.
Llenas tu propio ser con tu substancia.

Colmas la curvatura del silencio.

Con tu sal y tu miel tiembla la copa,
la cavidad universal del agua,
y nada falta en ti como en el cráter
desollado, en el vaso cerril:
cumbres vacías, cicatrices, señales
que vigilan el aire mutilado.

Tus pétalos palpitan contra el mundo,
tiemblan tus cereales submarinos,
las suaves ovas cuelgan su amenaza,
navegan y pululan las escuelas,
y sólo sube al hilo de las redes
el relámpago muerto de la escama,
un milímetro herido en la distancia
de tus totalidades cristalinas.

Pablo Neruda

Mais uma Escola que resiste...

Declaração do Departamento de Matemática da E S de Tomás Cabreira, Faro
---------------------------------------------- DECLARAÇÃO ----------------------------------------------------------------- Relativamente às recentes declarações da Senhora Ministra da Educação, em que se mostrou preocupada com o insucesso escolar, afirmando que "os chumbos é que são facilitismo", os professores do Departamento de Matemática da Escola Secundária de Tomás Cabreira, reunidos em 30 de Abril de 2008, declaram o seguinte: --------------------------------------- Denunciamos a distorção do conceito correspondente ao termo "facilitismo", tendo em conta a realidade e a vivência concreta na maioria das escolas portuguesas, onde os professores são constantemente pressionados para passarem alunos que não atingem os objectivos mínimos das respectivas disciplinas. ----------------------------------------------------------- Sublinhamos a explicitação, por parte da tutela, das verdadeiras razões que sustentam a preocupação com o insucesso, razões, quer de ordem economicista – chegando a argumentar com o preço de 3000 euros a que fica cada "chumbo" –, quer de ordem estatística – pretendendo comparar níveis de sucesso de países com realidades sociais que não são comparáveis; ---------------------------------------------------------------------------------------------------- Não obstante não enjeitarmos a responsabilidade que nos cabe na parte em que a Senhora Ministra afirma que não é com "chumbos", mas com mais trabalho dos professores que se atinge o sucesso, não deixamos de lamentar que a tutela continue a enviar a falsa mensagem aos alunos e respectivas famílias de que os professores trabalham pouco, em vez do apelo, que vem tardando, de estudo, rigor, trabalho e disciplina nas aulas para a maioria dos alunos e maior acompanhamento e exigência, por parte de muitas famílias, no sentido de cumprirem plenamente o papel que lhes cabe na educação dos filhos; ----------------------------------------------- Atendendo ao momento em que foram proferidas – perto do final de ano lectivo –, classificamos de irresponsáveis as declarações da Senhora Ministra da Educação, pela pretensão de condicionamento dos professores no processo de avaliações que se avizinha. --------- Mais declaramos que a mensagem de desresponsabilização dos alunos e respectivas famílias, essa sim, hipoteca o futuro dos nossos jovens e do País num mundo global cada vez mais exigente. --------------------------------------------------------------------------------------------------- Depois de discutida, a declaração foi aprovada, por unanimidade, pelos professores do Departamento.

UM PANO OU MANTA NEGRA JUNTO DA BANDEIRA

Professores de Portugal,

A nossa heroicidade e importância não é inferior à dos nossos futebolistas que, por estes dias, vão dar grande visibilidade ao nosso País.
Nas janelas, começam já a ver-se as bandeiras de Portugal, em sinal de apoio à selecção de futebol.

É a altura ideal para mostrarmos ao mundo o nosso descontentamente, o grave estado da Educação e as graves dificuldades por que passam os cidadãos de Portugal (muitos já passam fome), com políticos completamente alheados desta realidade que não vivem porque se sabem governar muito bem a si mesmos.

Assim, além da bandeira nacional pendurada na janela, coloquem, durante o Euro 2008, um pano ou uma manta negra em sinal de luto pelas políticas educativas e pelo sofrimento económico que todos atravessamos, à medida que vamos ficando asfixiados pelo desleixo educativo e pelo aumento descontrolado dos combustíveis, dos juros, dos bens alimentares.

Basta um colocar o pano ou a manta negra junto da bandeira, para que todos, na mesma rua ou no mesmo bairro, acabem por fazer o mesmo.

Desejeamos boa sorte à selecção! Quanto mais longe chegarem, maior será a visibilidade do nosso protesto.

As televisões europeias e do resto do mundo não deixarão de fazer eco desta manifestação!

FORÇA, PORTUGAL !

FORÇA, PORTUGUESES !

http://mobilizacaoeunidadedosprofessores.blogspot.com/
Copia esta mensagem e envia-a para todos os teus contactos.

UMA MINISTRA ESPERTA

Lurdes Rodrigues, escolhida para dirigir a portuguesa educação por José Sousa, engenheiro não reconhecido pela Ordem e artista que desenhou várias casas muito "típicas" que um dia voltaremos a ver, Lurdes Rodrigues, dizia, nunca frequentou o equivalente ao ensino secundário completo (do 10º ao 12º anos).Lurdes Rodrigues fez o antigo 5º ano do liceu. Daí seguiu para o Magistério Primário, onde o requesito de entrada era exactamente o 5º ano do liceu. No Magistério Primário completou os dois anos necessários para poder começar a trabalhar, dois anos de estudo esses que a habilitaram para ser professora primária. Seguiu como cooperante para Moçambique, através da Frelimo, que naquela época estava no início da aplicação prática da "ditadura do proletariado", que por cá muitos teorizavam. Dessa época não temos notícias, mas podemos imaginar a cooperante Rodrigues cooperando com a Frelimo na educação revolucionária e na exterminação dos "reaccionários" e outros adversos ao regime da ditadura do proletariado.Lurdes Rodrigues pôde assim juntar o saber prático da aplicação da ditadura do proletariado a outros saberes práticos variados que adquiriu nos anos que passou na Casa Pia, no Colégio de Santa Clara.
Voltou para Portugal e começou a dar aulas na "primária", entrando para o ensino superior ao abrigo das vagas criadas para professores, que para serem admitidos necessitavam do antigo 7º ano do liceu, que entretanto deve ter concluído. Portanto, na melhor das hipóteses, a actual ministra da educação entrou para o ensino superior com o equivalente ao 11º ano.
Desta maneira Rodrigues começou a frequentar o turno da noite de sociologia no ISCTE, instituto onde mais tarde faria o doutoramento e onde ficaria a dar aulas. Eu conheço bem o Iscte. Assisti a duas provas de doutoramento nesta escola e a única coisa que me ocorre dizer é que se fossem apresentadas na Universidade Nova, por exemplo, não tinham, muito provavelmente, nem passado nem sequer sido aceites. No Iscte passaram por unânimidade, aclamação e louvôr. Em Portugal é o/a orientador/a do/a candidato/a a doutor/a quem escolhe os membros do júri da prova de doutoramento. Este factor é muito sintomático porque deixa tudo à mercê do maior ou menor rigôr de cada pessoa e de cada instituição e sabemos que existem pessoas e instituições sem escrúpulos éticos e científicos.A única maneira de elevar o ensino superior em Portugal seria criar ciclos de avaliações bi-anuais, por exemplo, feitas por duas instituições internacionais diferentes que fossem variando de biénio para biénio, para se poderem cruzar os dados. Na Argentina, por exemplo, onde os professores universitários ganham substancialmente menos (e de que maneira...) que os portugueses, os professores têm de prestar provas públicas regulares onde apresentam os trabalhos publicados e as investigações feitas. Podem surgir outros candidatos. Se apresentarem melhores condições e maior nível que o titular da cátedra, agregado ou associado, ficam-lhe com o lugar. O ensino superior não pode ser um espaço de acomodação. É o ensino superior que forma os futuros governantes e "quadros" empresariais. A exigência tem de ser máxima a todos os níveis. Tem de ser um ensino dinâmico onde os seus profissionais se actualizam e investiguem. A criação de lugares de investigador pode fazer todo o sentido na física quântica ou na investigação médica. Nas "ciências humanas" não faz. O José Gil, por exemplo, que foi considerado por uma revista francesa como sendo um dos 24 pensadores mais relevantes da actualidade (há cerca de dois anos), é professor na Universidade Nova de Lisboa. Costuma dar as aulas todas e fica furioso quando os alunos chegam atrasados. Escreve artigos e livros considerados importantes pela comunidade internacional, participa em colóquios internacionais, é professor convidado em universidades estrangeiras e até, há muitos anos, organizou uma conferência internacional sobre estética da arte, que trouxe a Serralves, no Porto, os mais importantes pensadores da época, como François Lyotard. Concilia, ou conciliava antes de se jubilar, o ensino rigoroso e superior "de facto", com a investigação e actualização permanentes e a produção bibliográfica.

domingo, 1 de junho de 2008

Dia Mundial da Criança


Dormindo

Miniatura


Pois eu gosto de crianças!
Já fui criança também…
Não me lembro de o ter sido;
Mas só ver reproduzido
O que fui, sabe-me bem.

É como se de repente
A minha imagem mudasse
No cristal duma nascente,
E tudo o que sou voltasse
À pureza da semente.


Miguel Torga in Diário VIII (Coimbra, 11 de Abril de 1957)

Carta aberta aos professores...

CARTA ABERTA AO PROFESSOR



Professor deste país sem rumo, fábrica de pobres e mina de ricos gulosos e sem preconceitos; professor de uma Escola Pública à venda, a quem dá menos; professor, que vês o teu trabalho crescer de forma inversamente proporcional ao teu nível de vida, ao teu prestígio social e profissional, ao respeito que te é devido, pela nobre missão que desempenhas, com formação superior, que alcançaste a pulso; professor do meu país a saque, que, muito provavelmente, estiveste até altas horas da madrugada a preparar as tuas lições, a corrigir os teus testes, a fazer trabalho burocrático para a tua escola; professor, que, muito provavelmente, chegaste ontem a casa com a alma amarrotada, porque tiveste de suportar o desinteresse, a falta de educação, a falta de respeito, a desconsideração, o desprezo pelo teu trabalho e pela tua condição: hoje, é para ti que eu escrevo. Para ti, individualmente, e não para todos os professores do meu país, como tenho feito. Hoje, é apenas contigo que eu quero falar.

Não acredito, estimado colega, que tu concordes e aceites os aviltantes ataques que te têm sido desferidos por esta equipa ministerial. Não acredito, porque sei que prezas a tua dignidade pessoal e profissional e porque isso seria a negação dos valores e princípios inerentes à tua condição de professor e educador. Sei que nunca abdicarás dessa reserva moral. Acredito, nobre colega, que talvez te tenhas resignado, perante um combate que crês perdido, sem retorno. E estou convicto de que essa tua resignação resulta de um equívoco essencial: tu pensas que a tua decisão, num universo de 200.000 docentes, nada vale; que, se tu não te envolveres, outros o farão, que haverá sempre outras escolas que irão à frente, legitimando tudo. Estás equivocado, tragicamente equivocado: em boa verdade te digo que a reversão de toda esta mediocridade está apenas nas tuas mãos, na tua postura individual, na tua capacidade de dizer NÃO. A crença na nulidade da nossa acção individual é a raiz da nossa anulação. Colega, cada vez que damos esmola a um pobre, resolvemos os problemas do mundo. Acredita! Só a morte é irreversível.

Esta equipa ministerial tem agido de forma insidiosa, dolosa, visando apenas a redução de gastos, à custa do depauperamento da qualidade do ensino e da desqualificação dos professores, da sua progressiva funcionalização, factores essenciais para a justificação das escassas regalias, baixos salários, reformas miseráveis, desprestígio social e profissional. Esta equipa ministerial “descobriu” que pode transformar o “professor-pensante” em “professor-aplicador”. O primeiro é um autêntico dinossauro do nosso ensino: já há poucos e esta ministra da Educação pretende ver-se livre deles o mais depressa possível, para que não transmitam aos colegas mais novos as indesejáveis e perniciosas moléstias profissionais e éticas, que fez deles respeitáveis figuras sociais. O segundo exige uma formação mais barata e de nível muito mais baixo, é tendencialmente generalista, com vocação para entertainer e simulacro de assistente social, que não tem tempo nem profundidade cultural para pensar na sua acção didáctica, no Homem que está a promover com a sua rotina diária: é um funcionário, um amanuense que trabalha com enlatados curriculares prenhes de soluções e explicações de todos os passinhos que deve dar; é um servidor de congelados didácticos cozinhados algures, por alguém, que tem a maçada de pensar por ele; é um operário da instrução que pica o ponto e é avaliado como tal, ou seja, pelo número de aulas que dá, pelo número de faltas que não deu, pelo número de alunos rotulados com positiva, pelo número de alunos que conseguiu resgatar ao abandono. Este profissional desqualificado será avaliado e respeitado, de acordo com a sua condição.

Esta equipa ministerial tem agido de forma insidiosa, dolosa, em estilo de “caixa de Pandora”: atrás do novo sistema de avaliação de professores, está a passagem generalizada de todos os alunos, sem que, na verdade seja possível assegurar que todos alcancem os objectivos mínimos (para as estatísticas nada interessa, e como esses serão sempre os filhos dos mais pobres…); atrás desse “sucesso pleno” e “escolarização total”, está o aviltamento do professor, que terá de suportar diariamente a indiferença, o desprezo dos alunos que nada querem da escola, sem poder dar-lhes alternativas sérias e com futuro, sem nada poder fazer por aqueles que querem ser excelentes alunos e distintos profissionais, aqueles que, legitimamente, são ambiciosos e querem muito da vida; atrás deste novo sistema de avaliação está a mediocridade de toda a Escola Pública em geral, e do Ensino Básico em particular.

Mas o quadro ainda não está completo, digno colega, professor deste país a saque.
O que falta ainda? Uns ligeiros sombreados para realçar a perfídia deste “antigo regime” de gestão, que a senhora ministra da Educação pretende que sejamos nós mesmos a apadrinhar, de fatinho branco e asinhas de anjo.

Este “antigo regime” é o último elo da cadeia de comando que irá transformar-te num empregado do ensino, um subalterno sem direito de votar, de eleger os teus representantes, que, por sua vez, também não passarão de capachos do poder, sempre com a ameaça do retorno às carteiras — cada vez menos apetitosas — a pender sobre as suas cabeças. A tutela pressioná-los-á; eles pressionarão os coordenadores; estes pressionar-te-ão a ti; tu… E tudo isto acontecerá, porque o professor deixará de ser a cabeça que pensa e decide na escola. Na sua vez, estarão os caciques locais, os muchachos do partido, a “ortodoxia” que definirá o perfil do teu director — que tu nunca mais elegerás — colocando no cadeirão aquele que assegurar maior assertividade face a determinados objectivos que estarão para além das tuas preocupações. E tudo isto acontecerá, se tu, receando que outros — que não gostarias de ver no Conselho Geral — venham a perfilar-se, te apresentares a eleição, com a melhor das intenções, legitimando assim o mais agressivo ataque à Escola Pública e à tua condição docente, desde a sua criação pelo saudoso Marquês de Pombal. Não te iludas, porque, com este “antigo regime”, o professor vai estar sempre em minoria, subalternizado relativamente àqueles que pretendem que a escola seja apenas uma repartição que carimba certificados.

Íntegro colega, professor dedicado deste país sem rumo, está nas tuas mãos — e apenas nas tuas mãos — a reversão de todo este percurso decadente. Não penses, nem te refugies na acção necessária dos milhares de professores deste nosso Portugal. É da tua decisão que tudo está dependente e não de um colectivo utópico e espontâneo. É a ti que cabe decidir se participas ou não participas neste funeral, porque, mais tarde, é o teu rosto que te vai surgir no espelho, cada vez que nele te mirares.

É a ti — e apenas a ti — que cabe dizer NÃO.

Neste preciso momento em que te escrevo, colegas nossos, de todas as regiões do país, estão a caminho de Lisboa — deixando a família, os amigos e um fim-de-semana de descanso — para tentarem encontrar um rumo para todos nós, para tentarem remar contra esta maré de rebaixamento de humilhação. A nós, que ficámos no aconchego dos nossos lares, cabe-nos respeitar e dar força a essa dádiva, a esse denodo.



A FORÇA DE TODOS ESTÁ NO “NÃO” DE CADA UM.

Luís Costa

Um pouco de Museologia...

FUNÇÃO SOCIAL DO MUSEU E CIDADANIA...

A relação entre museologia e a educação constitui um elemento importante para entender o valor pedagógico do museu. Enquanto instituição pública, o museu foi ganhando progressivamente esse valor e a sua actividade educativa foi-se modificando ao longo do tempo, reflectindo as próprias transformações das sociedades, do pensamento científico e dos diversos contextos sociopolíticos. Neste sentido foram surgindo novas abordagens à relação entre o museu e a educação que nos parecem fundamentais analisar para compreender o papel educativo do museu e dos projectos museológicos na actualidade.
Para esta temática, analisamos alguns documentos sobre questões ligadas ao museu e à museologia, mas agora revisto na perspectiva entre museus e educação. Esses documentos provêm de organismos internacionais , cuja missão está relacionada com a preservação, valorização e divulgação dos museus e da museologia, nomeadamente a UNESCO, o ICOM e respectivos comités, bem como documento proveniente da Mesa-Redonda de Santiago do Chile (1972) e a declaração de Caracas (1992). Estes documentos serviram para entender a relação entre a museologia, o museu, e a educação e a escola nas diferentes épocas especialmente no que diz respeito à museologia contemporânea e às novas correntes museológicas.

CIDADANIA

O museu é entendido como o espaço onde se pode observar as relações dos indivíduos com a realidade no seu todo, e as colecções ilustram a memória colectiva e a identidade de uma comunidade. Consequentemente, o conceito de património cultural é redefinido para toda a produção social dos seres humanos e da sua relação com o meio ambiente onde o meio natural e o meio cultural são entendidos como um todo.
Outra consequência prende-se com a ampliação da área de intervenção do museu para o exterior, isto é, o território comunitário. As novas responsabilidades para o museu e para a museologia que daqui advêm implica uma prática interdisciplinar, onde a acção museológica é democratizada na medida em que prevê a participação de novos agentes, principalmente da comunidade local.
Neste contexto de participação Mário Moutinho aborda a museologia popular como:
“(...) um grupo de pessoas (grupo de interesse, comunidade, etc.) toma nas suas mãos a resolução de problemas que afectam a sua vida no quotidiano, reconhecendo-se que a sua solução passa por um conhecimento crescente dos problemas, pelo controlo de todos os seus aspectos, pela capacidade de inovoção, passa em suma pela participação” (Moutinho, 1989.110).

O mesmo autor afirma, que o factor humano é privilegiado e o objecto tem uma “(...) condição de utensílio da acção museal e não como até agora como fim dessa mesma acção” (Moutinho, 1989, p.107), e refere,

“ Alteram-se aqui, o lugar e a função dos intervenientes (profissionais – público – criadores) bem como as noções de património, de objecto museológico e de colecção. O poder de decisão é reequacionado em termos de uma possível autogestão, ou de pelo menos de uma maior acessibilidade de cada interveniente à gestão museológica e à criação museográfica.
Não ser uma museologia da ruptura ou marginal não significa que se estruture e se fundamente à imagem da museologia tradicional. Pelo contrário esta NOVA MUSEOLOGIA que resulta das novas condições de produção do discurso museológico acumulado ao longo de gerações, demonstra nas suas diversas formas uma consciência mais clara da ideia de participação e provoca uma implicação social mais evidente.
Estamos pois a falar de uma museologia informal que se enquadra no conceito mais amplo da museologia social o qual traduz uma parte considerável do esforço de adequação das estruturas museológicas aos condicionalismo da sociedade contemporânea” (Moutinho, 2001).

Nesta museologia de carácter social, o papel omnipotente do museólogo é substituído pela ideia de um gestor social que intervém em domínios da acção cultural, da acção social, da acção económica e até da acção política. Ele deve gerir os problemas da comunidade através de um diálogo permanente e envolvente com o objectivo de estimular a consciência crítica e dotar a população dos instrumentos necessários ao seu desenvolvimento. Neste contexto, a acção museológica relaciona-se com o momento presente, com o quotidiano das pessoas, e não apenas com a preservação de um testemunho passado para as gerações futuras.
Para Santos, são sete os princípios básicos que caracterizam as acções enquadradas na Nova Museologia:

“- O reconhecimento das identidades e das culturas de todos os grupos humanos;
- A utilização da memória colectiva como um referencial básico para o entendimento e a transformação da realidade;
- O incentivo à apropriação do património, para que a identidade seja vivida, na pluralidade e na ruptura;
- O desenvolvimento de acções museológicas, considerando como ponto de partida a prática social e não as colecções;
- A socialização da função da preservação;
- A interpretação da relação entre o homem e o seu meio ambiente e da influência da herança cultural na identidade dos indivíduos e dos grupos sociais;
- A acção comunicativa dos técnicos e dos grupos comunitários, objectivando o entendimento, a transformação e o desenvolvimento social” (Santos, 2002, p.108-109).

A nova museologia não resulta da evolução da museologia tradicional mas da necessidade do museu e da museologia se adaptarem e responderem às transformações da sociedade e a novas necessidades culturais. Quer a nova museologia, quer a museologia tradicional continuaram no tempo, por vezes de forma paralela outras cruzando-se em determinados pontos. Assim podemos dizer que não existe uma única noção de museologia mas antes distintos modelos que provêm de diferentes concepções de museu e de acção museológica.
Nesta museologia social, activa e comunitária, a questão da função social é fundamental e os museus procuram, cada vez mais, desempenhar um papel pertinente na comunidade, sendo que o património é utilizado como instrumento para o exercício da cidadania e para o desenvolvimento da sociedade, onde o processo educativo é fundamental.
Para entender que a maior potencialidade dos museus é a sua acção educativa e, a educação verdadeira é aquela que serve à libertação, questionamento e reflexão, é que alguns profissionais da museologia trouxeram, a partir da década 70, para “o mundo dos museus”, o método de Paulo Freire.
Poderíamos dizer que a teoria de Paulo Freire se baseia na colaboração, união pela libertação, síntese cultural, diálogo, criatividade, reflexão crítica e na negação da educação repressora. Sendo assim uma teoria/prática educativa que compreende o indivíduo como ser participativo que busca, em colaboração com outros indivíduos, a emersão da consciência e do saber.

“ Já agora ninguém educa ninguém, como tampouco ninguém se educa a si mesmo: os homens se educam em comunhão, mediatizados pelo mundo” (FREIRE. 1981:69).

Baseada em Paulo Freire e não só, a acção educativa museológica deve criar situações que levem, os sujeitos envolvidos, à reflexão e ao desenvolvimento. Somente desta forma estará contribuindo para uma educação que seja dialógica e libertadora, onde os indivíduos estejam capacitados a transformarem a sua realidade.
O exercício da cidadania só ocorre quando o indivíduo conhece a realidade na qual está inserido, a memória preservada, os acontecimentos actuais, entendendo as transformações e buscando um novo fazer.Assim, podemos dizer que a museologia tomando como base o Património Cultural – que é fruto do fazer e saber fazer do homem e, continuando a desenvolver as funções básicas de colecta, documentação, conservação, exposição e acção cultural, todas elas direccionadas ao fazer educativo – cultural na tentativa de despertar a consciência crítica do indivíduo, leva-o assim a reapropriação da memória colectiva e ao direito do exercício da sua cidadania.

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